A complexidade psicológica de berserk: Revisitando a era de ouro e o arco de griffith além da linearidade

Análise aprofunda a narrativa de Berserk como não linear, focando na zona cinzenta dos personagens Guts e Griffith e no impacto emocional da Era de Ouro.

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Analista de Mangá Shounen

01/01/2026 às 12:35

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A narrativa de Berserk, obra seminal de Kentaro Miura, frequentemente é analisada de maneira simplista, tratando eventos e personagens como blocos monolíticos de bem ou mal. Contudo, uma leitura mais atenta sugere que a obra prospera em camadas psicológicas profundas, recusando-se a ser entendida apenas como uma sequência direta de eventos.

O debate em torno da profundidade dos personagens centrais, Guts e Griffith, exige que o público compreenda a obra não como um espectro binário, mas sim como um resultado complexo de contexto e motivações. A experiência de Guts, por exemplo, é marcada por momentos de ambiguidade moral que redefinem sua própria identidade. Um ponto crucial nesse desenvolvimento ocorre com o assassinato acidental de Adonis. Embora não intencional, o evento força Guts a encarar a consequência de seguir o sonho de outra pessoa, culminando em sua decisão de buscar um caminho próprio.

O custo da devoção e a queda de Griffith

A reação natural de muitos espectadores é oferecer total absolvição a Guts pelo incidente, enxergando sua culpa como inevitável dadas as circunstâncias. No entanto, a recusa em aplicar uma balança semelhante de entendimento ao caminho trilhado por Griffith, que culmina em sua transformação em Femto, aponta para uma barreira emocional intransponível na recepção da audiência.

O ato de Femto contra Casca, no Eclipse, é universalmente reconhecido como o ponto de não retorno, um evento que justifica a condenação total e encerra qualquer possibilidade de debate sobre o perdão. Contudo, ignorar os sentimentos prévios de Griffith pela Banda dos Falcões, seu carinho por Guts e o laço com Casca anula a própria tragédia que torna a história tão poderosa. A complexidade reside justamente na existência desse afeto antes da escuridão.

Se o sacrifício de Casca não tivesse ocorrido, o fandom talvez estaria perpetuamente dividido entre as motivações de Guts e Griffith. A narrativa, no entanto, estabeleceu um limite claro: o mal cometido pelo líder se tornou definitivo, simplificando a jornada subsequente para uma busca por retaliação pura.

A Era de Ouro como pico emocional

Apesar da ação desenfreada contra apóstolos e seres demoníacos que caracteriza a fase final da saga, é o período da Era de Ouro, muitas vezes capturada com maestria pela adaptação em anime, que é frequentemente citada como o ápice emocional da obra. Antes do Eclipse, a narrativa oferece um contraponto essencial ao trauma posterior.

Este arco inicial é caracterizado por momentos de:

  • Alegria genuína
  • Convivência calorosa
  • Um forte senso de camaradagem familiar

Essa exploração da felicidade e do pertencimento serve a um propósito narrativo fundamental: demonstrar exatamente o que foi perdido. O contraste entre a família unida da Banda dos Falcões e o pós-Eclipse, dominado por depressão, trauma e pura resistência, é o que confere tanto peso emocional à destruição daquele núcleo. A obra de Miura, portanto, exige uma apreciação por suas tonalidades, e não apenas por suas sombras mais intensas.

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Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.