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Análise retroativa questiona a cena de abertura icônica de berserk e seu encaixe com o protagonista

A sequência inicial de Berserk, brutal e explícita, é alvo de questionamentos sobre sua coerência com o arco de trauma de Guts.

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Analista de Mangá Shounen

19/02/2026 às 02:06

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A sequência de abertura do mangá Berserk, mundialmente aclamada por sua escuridão e impacto visceral, tem sido objeto de reavaliação por parte de analistas da obra. A cena em questão, que mostra Guts envolvido em um ato violento sexualmente explícito com uma entidade demoníaca, levanta questões profundas sobre a intenção narrativa inicial e a caracterização consolidada do protagonista ao longo da saga.

O conflito entre choque e desenvolvimento de personagem

Embora a cena sirva inegavelmente para estabelecer o tom incrivelmente sombrio e cruel do universo criado por Kentaro Miura, críticos apontam que o ato pode ser desnecessariamente chocante e, mais importante, destoante do desenvolvimento psicológico posterior de Guts. A intenção inicial de muitos espectadores é ser apresentado a uma história profunda e filosófica, mas o primeiro contato visual é com um ato de agressividade extrema.

Argumentos a favor da cena defendem que ela funciona como um retrato inicial da natureza brutal do mundo e da desesperança vivenciada por Guts naquela fase. Contudo, a linha de raciocínio contrária foca na inconsistência com o histórico traumático do personagem. Guts carrega consigo feridas profundas relacionadas a abusos sofridos, resultando em um visível desconforto com a intimidade e o toque humano.

A questão do trauma e a coerência psicológica

O dilema central reside na aparente contradição: como um personagem com trauma tão evidente por abuso sexual se engajaria voluntariamente em uma relação sexual, mesmo que motivado pela matança do inimigo? Para alguns, a ideia de Guts descartar seu profundo desconforto físico e emocional para assassinar um demônio soa como uma justificativa forçada para o espetáculo.

Pesquisas sobre a evolução da narrativa sugerem que, no início de Berserk, a autora Kentaro Miura poderia não ter solidificado a profundidade do trauma posterior de Guts, especialmente no que tange ao seu relacionamento com Casca, que se tornaria o cerne emocional da série. A cena, vista sob esta luz, parece mais um recurso de edginess - a busca por ser extremo - do que um pilar fundamental para a psique que Guts desenvolveria.

É importante diferenciar este momento das múltiplas cenas de violência posterior no mangá, que geralmente são contextualizadas com um propósito narrativo claro, seja o avanço do enredo ou a exploração de temas como sacrifício e destino. A abertura, em contraste, falha em justificar sua extrema natureza com a complexidade psicológica que o mangá viria a dominar, tornando-se um ponto de fricção para novos leitores que buscam compreender a profundidade de um dos maiores épicos de fantasia sombria já escritos, como o mangá Berserk.

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Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.