A mudança de tom em berserk: O impacto da introdução de alívio cômico após o eclipse
A chegada de personagens como Puck e Isidro após o fatídico Eclipse em Berserk gerou debates sobre o equilíbrio entre o terror e o humor na obra.
A obra-prima de Kentaro Miura, Berserk, é celebrada mundialmente por sua narrativa sombria, crueldade implacável e exploração profunda do sofrimento humano. No entanto, um ponto crucial na trajetória de Guts, o Espadachim Negro, é a transição tonal que ocorre após o evento devastador conhecido como o Eclipse.
Muitos leitores observam que, após Guts iniciar sua jornada com a marca do sacrifício, a introdução de figuras como o elfo Puck e o jovem espadachim Isidro introduz um elemento cômico mais proeminente. Embora o mangá mantenha sua veia de horror, com cenas que exploram fanatismo religioso, psicose em massa e sofrimento extremo, a natureza frequentemente caricatural de Puck e a energia juvenil de Isidro parecem aliviar o peso da narrativa de maneira significativa.
O Contraste entre o Horror e o Cômico
Nos arcos iniciais, o humor existia, muitas vezes encarnado por personagens como Corkus, mas era aplicado de forma mais contida e servia primariamente para ancorar o leitor na humanidade dos protagonistas em meio à escuridão. Após o Eclipse, essa contenção parece se desvanecer. Personagens como Puck, retratados frequentemente em um estilo chibi, interagem diretamente com Guts durante momentos de extrema gravidade, o que para alguns espectadores minaria a seriedade das situações.
Por exemplo, mesmo diante de ameaças como os filhotes de serpente ou manifestações de loucura coletiva, a presença constante e a natureza irreverente de Puck funcionam como um contraponto direto ao terror. A adição de Isidro, um garoto impulsivo e brincalhão, intensifica essa dinâmica, criando sequências que beiram o cômico em meio a batalhas brutais e reflexões existenciais.
A Intenção Criativa de Miura
É interessante analisar qual poderia ter sido a intenção por trás dessa escolha estilística. Uma interpretação sugere que essa injeção de alívio cômico é vital para a sobrevivência psicológica de Guts. Em um mundo que se tornou intoleravelmente sombrio e violento, a capacidade de encontrar um momento de leveza, mesmo que através de um elfo irritante, torna-se um mecanismo de enfrentamento. O humor, neste contexto, não anula o horror, mas sim oferece o respiro necessário para que o protagonista (e o leitor) possa continuar a jornada.
Outra perspectiva aponta que a convivência com Puck e Isidro força Guts a interagir e, lentamente, reconectar-se com o lado mais humano da existência. Enquanto tragédias pessoais e manifestações demoníacas dominam o enredo, esses companheiros representam o calor e a conexão que o Espadachim Negro perdeu drasticamente. A leveza introduzida por esses personagens funciona, portanto, como um contrapeso essencial para sustentar a longevidade da narrativa de vingança e dor, garantindo que Berserk se mantenha como uma epopeia, e não apenas um catálogo de atrocidades.