Moriarty the patriot: A trama psicológica que subverte o ideal de herói em contos vitorianos
A animação Moriarty the Patriot redefine Sherlock Holmes ao focar no gênio do crime, explorando dilemas morais profundos sobre justiça e corrupção.
O universo ficcional centrado em Sherlock Holmes frequentemente o consagra como o farol da razão e da justiça na sombria Londres Vitoriana. No entanto, uma produção que catalisa o interesse por seu enfoque em mistério e profundidade psicológica decide virar essa perspectiva: Moriarty the Patriot. A série, composta por 13 episódios, opta por narrar a história a partir do ponto de vista de William James Moriarty, o arqui-inimigo tradicionalmente retratado como o vilão.
A guerra ideológica contra a desigualdade
Ambientada na Grã-Bretanha do século XIX, a trama expõe uma sociedade sufocante rigidamente dividida por privilégios aristocráticos. A justiça, nesse cenário, é um luxo acessível apenas aos poderosos, enquanto a classe baixa padece sob a exploração nobre. É neste contexto que William Moriarty e seus irmãos, Albert e Louis, traçam um plano radical.
O objetivo de William não é o caos ou a ganância. Ele se torna o Lord of Crime com a meta de desmantelar essa estrutura social opressiva. O que torna a narrativa particularmente instigante é a ausência de maniqueísmo simplista. A série força o espectador a confrontar uma questão central: a reforma social, mesmo quando motivada pela equidade, pode justificar atos extremos como o assassinato? Cada movimento estratégico é um exercício de desconforto moral.
Intelecto e manipulação no lugar do espetáculo
Diferente de muitas produções de ação ou fantasia, Moriarty the Patriot dispensa clichês como transformações exageradas ou poderes sobrenaturais. O motor da trama é puramente intelectual. A tensão é construída através de estratégias complexas, onde conversas se assemelham a duelos de xadrez. O ritmo é deliberado, priorizando o desenvolvimento do plano e a antecipação sobre a ação incessante.
William Moriarty é o epítome do protagonista anti-herói filosófico. Longe de ser impulsivo, ele se mantém calmo e analítico. Sua motivação, nascida de experiências diretas com a injustiça, é apresentada com convicção, mas sem glorificação cega da violência. A narrativa jamais oferece uma resposta fácil sobre a retidão de seus métodos, deixando ao público a tarefa de julgar suas ações.
O duelo de titãs intelectuais
A introdução de Sherlock Holmes na narrativa eleva o nível do confronto. Não se trata de um simples embate entre bem e mal, mas sim de um encontro entre duas mentes geniais que se atraem e se desafiam mutuamente. Holmes reconhece a inteligência de seu opositor, e Moriarty vê em Sherlock a única força capaz de verdadeiramente desafiá-lo. As interações entre eles são carregadas de subtexto e guerra mental, tornando-se o ponto alto da série para quem aprecia profundidade em diálogos.
Temas pesados e atmosfera Vítoriana
O anime não se esquiva de temas complexos como a desigualdade de classes, a corrupção institucional e o relativismo moral. A representação artística do período vitoriano é notável, com cenários escuros e elegantes que acentuam a atmosfera de tensão onipresente e calculada. A trilha sonora complementa essa elegância tensa.
Embora o enredo se inicie de forma mais episódica, estabelecendo as bases da ideologia de Moriarty, as fases posteriores se tornam mais interconectadas e emocionalmente densas. É uma descida controlada rumo à revolução ideológica, que exige paciência do espectador em troca de uma recompensa temática rica. A lealdade fraterna dos Moriarty em contraste com seus planos frios adiciona uma camada fundamental de humanidade aos personagens, cujas escolhas carregam consequências palpáveis ao longo da história.