A ambiguidade de gênero em neferpitou e as nuances de alluka/nanika no universo de hunter x hunter
A exploração da identidade de gênero de Neferpitou e a complexidade de Alluka/Nanika revelam camadas profundas na narrativa de Yoshihiro Togashi.
A obra Hunter x Hunter, criada por Yoshihiro Togashi, é frequentemente elogiada não apenas por seu sistema de Nen complexo e suas batalhas estratégicas, mas também pela riqueza de seus personagens secundários. Entre eles, dois indivíduos se destacam por levantarem discussões recorrentes sobre a representação e a fluidez de identidade visual e funcional dentro da narrativa: Neferpitou e Alluka Zoldyck (também conhecida como Nanika).
O Enigma da Identidade de Neferpitou
Neferpitou, um dos membros mais poderosos da Guarda Real das Formigas Quimera, apresenta uma estética visual que, para muitos observadores, sugere traços femininos. Sua aparência é esguia e seu porte pode ser interpretado como delicado, o que, em mídias japonesas, muitas vezes sinaliza o gênero feminino. No entanto, a obra original e seu autor raramente fazem declarações explícitas sobre o gênero de Pitou.
A ausência de uma designação clara ou o uso de pronomes ambíguos em traduções servem a um propósito narrativo específico. A Guarda Real em Hunter x Hunter é retratada como uma entidade superior, quase desprovida de emoções ou identidades humanas convencionais. Ao manter o gênero de Pitou em aberto ou ambiguamente definido, Togashi reforça a natureza non-humana e alienígena da criatura. A identidade de Pitou reside em sua função e poder, transcendo as classificações binárias humanas.
A Dualidade de Alluka e Nanika
A situação de Alluka Zoldyck, a irmã mais nova de Killua, é ainda mais complexa, pois envolve duas entidades distintas operando a partir do mesmo corpo. Alluka é universalmente tratada como uma menina pelo clã Zoldyck e por Killua, seu protetor dedicado. Ela manifesta-se com vestimentas tipicamente femininas e um comportamento infantil.
Contudo, quando seus desejos são invocados, emerge Nanika, uma entidade com um poder aterrador e uma personalidade que parece dissociada da criança. A relação entre Alluka e Nanika é um estudo fascinante de alteridade e controle parental. Enquanto Alluka é a identidade primária conhecida pela família, Nanika é a manifestação do poder sobrenatural que a família Zoldyck teme e tenta suprimir.
A identificação de Alluka como mulher é estabelecida pela família, mas a natureza de Nanika, que exige sacrifícios em troca de realizar desejos, coloca em xeque a própria noção de individualidade. A questão não é primariamente sobre o gênero de Nanika, mas sobre a separação entre a existência humana (Alluka) e a força sobrenatural (Nanika) que reside nela, algo que Killua aprende a aceitar e abraçar plenamente, entendendo que ambas as partes são essenciais para a sobrevivência de Alluka.
Estes exemplos demonstram como Yoshihiro Togashi utiliza a ambiguidade e a dualidade para aprofundar temas de identidade, poder e o que significa ser humano ou entidade dentro do seu vasto universo, desafiando as expectativas de gênero estabelecidas em narrativas de aventura tradicionais.