A crise existencial de griffith: O sacrifício extremo foi uma reação humana justificável?
Apesar do horror do Eclipse, a escolha de Griffith diante da aniquilação de seus sonhos levanta um dilema moral profundo sobre o desespero absoluto.
Um dos momentos mais sombrios e debatidos na narrativa de Berserk reside no cerne da transformação de Griffith, especificamente o evento conhecido como o Eclipse. Analisando estritamente o elemento humano que precedeu sua ascensão como Femto, emerge uma questão complexa: seria justificável que um indivíduo, face à aniquilação total de sua identidade e propósito, escolhesse o caminho do mal absoluto como única rota de fuga de um destino pior que a morte?
No ponto em que Guts e Casca resgatam Griffith das masmorras da Midland, ele estava reduzido a um esqueleto vivo. Um ano de tortura brutal havia mutilado seu corpo: tendões cortados, incapacidade de falar e a fraqueza extrema que o impedia até mesmo de cometer o suicídio de forma eficaz. Para um homem cuja existência inteira era definida por sua ambição, orgulho e a capacidade de liderar, a perspectiva de viver como um inválido, objeto de piedade, era, em sua própria mente, um vazio existencial insuportável.
A anulação da vontade e do sonho
A dor física era imensa, mas a dor psicológica era terminal. Griffith via seu sonho, a conquista de seu próprio reino, reduzido a pó. A visão de Guts e Casca planejando cuidar dele como uma criança perpetuava a humilhação. Ele havia perdido todo o controle, o pilar de sua personalidade. A existência restante seria uma longa e agonizante impotência.
Quando a Mão de Deus lhe ofereceu uma saída, materializando uma chance de escapar dessa condenação à inação e, simultaneamente, realizar sua ambição suprema, a natureza da escolha muda drasticamente. Não era apenas uma escolha entre a vida e a morte, mas sim entre a não-vida como um ser quebrado versus o poder ilimitado. O sacrifício exigido, embora grotesco e envolvendo a traição de todos os seus companheiros da Tropa do Falcão, tornava-se a única maneira de preservar o eu idealizado que ele valorizava acima de tudo.
O dilema da justificação humana
A questão central que se propõe é se a intensidade do desespero e da perda absoluta pode anular a moralidade das ações subsequentes. Se alguém estivesse imerso em agonia física e psicológica intransponível, sem nenhuma esperança tangível de recuperação, a reação humana natural seria a autopreservação, mesmo que essa autopreservação exigisse um custo ético colossal. A rejeição da oferta da Mão de Deus significaria aceitar a extinção lenta de sua identidade e a perpetuação da dor como um fardo.
A contra-argumentação reside em saber se o preço de seu renascimento - o massacre de todos que o amavam e a quebra do pacto humano para alcançar o divino - pode ser mitigado por sua condição prévia. A perspectiva cínica sugere que a ambição desenfreada de Griffith o levou a um ponto onde ele já havia, em essência, sacrificado sua humanidade muito antes do ritual. Contudo, a análise focada no momento da ativação do Behelit coloca o peso da decisão sobre a alternativa imediata: aceitar a invalidez eterna ou buscar a divindade pela via mais sombria. A narrativa explora se o abismo do sofrimento pode justificar a descida ao mal absoluto como um ato final e desesperado de vontade humana.
Analista de Mangá Shounen
Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.