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A complexidade moral de griffith em berserk: O trauma como catalisador da atrocidade

A análise aprofundada do personagem Griffith explora se o trauma extremo justifica ou explica seus atos de violência e sacrifício na obra.

Analista de Mangá Shounen
03/02/2026 às 14:44
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A figura de Griffith, personagem central na aclamada série de mangá Berserk, continua a ser um ponto nevrálgico de debate entre os apreciadores da obra de Kentaro Miura. A discussão frequentemente oscila entre a condenação total de suas ações e a tentativa de atenuar sua culpa sob a luz do imenso sofrimento que ele suportou.

A complexidade de Griffith reside precisamente na forma como Miura utiliza sua trajetória para examinar o ciclo de trauma, explorando a fina linha entre a vítima e o perpetrador. Antes de sua transformação em Femto, suas ações já eram marcadas por uma ambiguidade notável. Questões sobre suas verdadeiras intenções pairam sobre momentos cruciais, como o resgate de Casca. Seria um gesto genuíno de afeto ou apenas mais uma jogada estratégica para manter a Tropa do Falcão sob seu controle, peça fundamental para a ascensão ao seu sonho de ter um reino?

A posse sobre Guts e a fragilidade do ego

Mesmo em relação a Guts, a pessoa pela qual ele parecia nutrir o sentimento mais próximo de carinho pessoal, essa relação era marcada por um senso de posse. Quando Guts decide trilhar seu próprio caminho, a reação de Griffith não é de aceitação, mas sim de violência instrumentalizada para forçá-lo a permanecer. A perda percebida do controle sobre Guts, alguém que ele via como parte intrínseca de seu ser e de sua ambição, parece catalisar uma crise posterior de controle.

A subsequente agressão contra a Princesa Charlotte, que se seguiu à sua prisão e tortura, é frequentemente vista como uma manifestação direta dessa perda de poder e do desvio de sua frustração. Embora o foco não deva ser apenas no ato em si, é inegável que Griffith utiliza sua vulnerabilidade momentânea para reafirmar domínio sobre alguém socialmente superior, um mecanismo de defesa distorcido ante o trauma infligido.

O peso da tortura e a absolvição moral

O cerne da controvérsia reside no período de encarceramento e tortura física e psicológica que Griffith vivencia. Há um consenso de que a provação sofrida foi de uma crueldade desproporcional e quase inimaginável, envolvendo mutilação e abuso sexual severo. No entanto, a grande questão moral levantada é se esse sofrimento extremo o isenta da responsabilidade pelo sacrifício subsequente da Tropa do Falcão durante o Eclipse, um ato que selou sua ascensão como Femto.

Defender que o trauma absolve o agressor é uma premissa que falha em contextos sociais e éticos mais amplos. Assim como no mundo real, onde vítimas de abuso não estão isentas de culpa se replicam a violência, o sofrimento extremo de Griffith não pode ser apresentado como uma justificativa moralmente aceitável para cometer atrocidades contra aqueles que lhe foram leais incondicionalmente. Eles arriscaram suas vidas para salvá-lo da perseguição real, apenas para serem sacrificados em prol de um desejo supremo.

É possível sentir pena de seu destino, reconhecer o desespero que a tortura impôs a seu estado mental e até mesmo aceitar que isso serviu de motor para sua decisão apocalíptica. No entanto, a análise crítica da obra sugere que o mérito de Berserk reside justamente na capacidade de manter essas verdades simultaneamente: Griffith foi uma vítima de dor excruciante, e ainda assim, ele é o responsável pelas monstruosidades cometidas. Essa coexistência de dor profunda e responsabilidade pelas ações define a tragédia de seu personagem e se estende, de maneiras diferentes, a outros núcleos da narrativa, como o de Guts.

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Tags:

#Berserk #Trauma #Griffith #abuso #Complexidade do Personagem

Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.

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