A complexa relação de casca com griffith após o trauma e as implicações psicológicas em berserk

A recuperação de Casca e seu encontro com Griffith no volume 8 de Berserk levantam espinhosas questões sobre trauma e apego.

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Analista de Mangá Shounen

12/01/2026 às 15:38

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A narrativa de Berserk, obra-prima de Kentaro Miura, sempre explorou as profundezas da psique humana, especialmente quando confrontada com o horror absoluto. Um dos pontos mais delicados e intensos da trama, que recentemente reacendeu debates entre os leitores no volume 8, reside na interação entre Casca e Griffith após sua restauração parcial da memória.

O foco da análise se concentra na possibilidade de Casca manifestar algum tipo de apego traumático, ou trauma bonding, em relação a Griffith, seu antigo comandante e, posteriormente, o nefasto Femto. A situação é intrinsecamente perturbadora, dado o nível de sofrimento indizível que Griffith infligiu a ela, um evento tão devastador que resultou na perda total de sua memória e sanidade.

A ambiguidade da familiaridade

No estágio de recuperação em que se encontra, Casca demonstra uma complexa mistura de reações ao reencontrar Griffith. Não se trata de uma aceitação ou afeição genuína, mas sim de um sentimento que oscila entre a repulsão instintiva e uma estranha familiaridade com a figura que dominou seus pesadelos por tanto tempo, mesmo que de forma inconsciente anteriormente.

A confusão surge quando, em determinados painéis, pode-se vislumbrar não apenas medo, mas também uma espécie de reconhecimento da intensa ligação passada. É crucial entender o contexto: antes do Eclipse, Griffith era o objeto de devoção e admiração de muitos, incluindo Casca, que o via como um líder inspirador e o centro de seu mundo na Banda dos Falcões. A perda dessa memória traumática a deixou vulnerável a resquícios emocionais.

Essa reação ambígua pode ser interpretada de duas maneiras principais pelos analistas da obra. Primeiramente, pode representar o mero retorno da memória da figura que ela amava e adorava, um fantasma emocional persistente antes que o horror da realidade tome conta novamente de sua mente. A mente, ao tentar se reconstruir, pode estar acessando camadas emocionais pré-trauma.

Em segundo lugar, e mais sombrio, há a hipótese do choque da presença do antagonista absoluto. A familiaridade não implica conforto. Pode ser o reconhecimento imediato do predador que a marca, gerando uma resposta fisiológica de angústia misturada à memória da hierarquia anterior. A intensidade da dor e o subsequente esquecimento total atestam a profundidade do trauma sofrido, tornando qualquer resquício de conexão emocional um sintoma da batalha interna pela reconstrução de sua identidade.

A leitura atenta sugere que o peso do passado retorna como um fardo psicológico avassalador. A confusão da personagem reflete a dificuldade em distinguir o amor idealizado pelo líder de guerra do terror indescritível imposto pelo ser celestial que ele se tornou. A jornada de Casca é uma das mais dolorosas explorações sobre as consequências duradouras da violação psicológica e física na saga de fantasia sombria.

An

Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.