Análise de narrativa em naruto: Por que fãs percebem tratamento diferente para sasuke e obito

Pesquisa aprofundada explora as diferenças na avaliação de Sasuke Uchiha e Obito Uchiha como antagonistas na história de Naruto.

Analista de Anime Japonês
Analista de Anime Japonês

14/02/2026 às 17:04

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Observa-se um frequente ponto de divergência na análise de personagens complexos dentro da obra Naruto, notadamente no tratamento dado a Sasuke Uchiha e Obito Uchiha por parte do público. A frustração surge da percepção de um aparente duplo padrão: Obito é, em certa medida, visto com certa nobreza apesar de seus atos, enquanto as ações de Sasuke, como seu ataque durante o Cume dos Cinco Kages, são rigidamente julgadas como vilania pura. Embora Sasuke objetivamente tenha causado menor volume de mortes em comparação com Obito, a disparidade na avaliação não reside estritamente na moralidade quantitativa.

A chave para entender essa diferença de percepção reside no conceito de framing narrativo, ou enquadramento. A literatura, especialmente a ficção popular, utiliza a forma como os eventos são apresentados para guiar a reação do público, e não apenas os fatos literais em si.

Motivação: propósito versus catarse pessoal

O ponto de partida para a análise é a motivação dos personagens. O ímpeto inicial de Sasuke, a vingança contra o governo de Konoha pela manipulação que levou ao extermínio de seu clã, é intrinsecamente compreensível para muitos leitores. Ele busca retribuir o dano causado, ecoando um princípio de “olho por olho”.

No entanto, a narrativa demonstra que a raiva de Sasuke transcende a justiça direcionada. Seu objetivo se expande para a aniquilação de todos que se beneficiaram do sistema, incluindo inocentes. Sua fúria não visa um ganho material ou a sobrevivência pessoal, mas sim uma satisfação baseada unicamente na expressão de sua dor. Trata-se de uma morte sem propósito final além da catarse emocional. Em contraste, personagens como Danzo Shimura, embora efetivamente vilanescos, agiram com base em princípios, mesmo que distorcidos, como a manutenção da paz através da corrupção.

Obito: canalizando a dor para um objetivo maior

Obito Uchiha, por outro lado, comete atrocidades em uma escala muito superior. Sua queda é desencadeada pela morte de Rin Nohara, seu amor de infância. Inicialmente, sua reação é violenta e reativa, matando aqueles que ele considera responsáveis imediatamente.

Contudo, o que constrói o enquadramento mais favorável de Obito é como sua dor é conscientemente elaborada em um plano grandioso. Ele convence a si mesmo que a execução do Tsukuyomi Infinito é necessária para consertar um mundo que tirou Rin dele. Mesmo que o plano envolva a remoção do livre arbítrio, a premissa para Obito e Madara é que estão salvando bilhões de seres sencientes de um ciclo perpétuo de dor e sofrimento. A morte dos milhares ao longo do caminho se torna um sacrifício necessário para garantir a felicidade eterna de todos os restantes no mundo ilusório.

Essa justificativa ideológica, mesmo que falha e baseada em um trauma pessoal profundo, confere um ar de sacrifício pelo bem maior, um impulso que a audiência frequentemente associa a arquétipos heroicos, ainda que as ações sejam deploráveis. A motivação de Obito foi transformada em um serviço a uma causa, enquanto a de Sasuke permaneceu focada na vingança pessoal.

O impacto do enquadramento temporal e da atitude

A forma como a narrativa enquadra a descida de cada personagem também é crucial. A vilania de Sasuke no Cume dos Cinco Kages é apresentada como uma reação explosiva e temporária, ocorrendo imediatamente após a descoberta de que toda a sua vida foi uma mentira elaborada por aqueles que ele confiava. A história sugere que tal colapso mental seria compreensível para qualquer um sob tamanha inversão de realidade.

O ponto alto, no entanto, é o retorno de Sasuke. Ele eventualmente se redime, cura suas feridas e participa ativamente na salvação do mundo, fazendo com que seus atos sombrios sejam vistos como um desvio temporário em uma longa jornada heroica. A obra sinaliza que o homem não foi perdido permanentemente.

Para Obito, o arco é de queda contínua. Embora ele se arrependa profundamente de suas ações antes de morrer, o reconhecimento vem tarde demais para qualquer redenção prática em vida. Os atos de Obito são o cerne de seu caráter durante décadas, não um lampejo de loucura.

Além disso, a atitude no momento da ação pesa na percepção. Sasuke, em seu momento de fúria, exibe um comportamento que beira o constrangimento adolescente, rindo e agindo de forma exagerada, o que gera repulsa ou ceticismo. Obito, ao contrário, mantém uma compostura sombria e focada em sua missão, transmitindo uma seriedade implacável que, ironicamente, é interpretada como uma forma de estoicismo 'cool' por alguns espectadores, distanciando-o da imagem do psicopata histérico.

Em última análise, a recepção dos personagens é menos sobre a lógica fria de suas ações e mais sobre a carga emocional que a narrativa lhes atribui. A emoção, prioridade no consumo de histórias, determina se o sacrifício é percebido como nobre ou se a vingança é vista como mero descontrole, moldando a percepção pública dos antagonistas de Naruto.

Analista de Anime Japonês

Analista de Anime Japonês

Especialista em produção e elenco de animes e filmes japoneses originais. Possui vasta experiência em cobrir anúncios de elenco, equipe técnica e trilhas sonoras de produções de nicho, focando na precisão dos detalhes da indústria.